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A história real do tarô: de jogo italiano aos 78 arcanos

Pergunte a maioria das pessoas de onde vem o tarô e a resposta provável envolve sacerdotes egípcios, papiros perdidos ou um saber cigano milenar. Nada disso é história documentada. O tarô nasceu como um jogo de cartas de trunfo na Itália do século 15, encomendado por famílias nobres de Milão e Ferrara para se divertir à mesa, não para prever o futuro. A ideia de que ele guarda sabedoria egípcia antiga é uma invenção específica, datada e assinada: um escritor francês a lançou em 1781, décadas antes de qualquer europeu conseguir ler um hieróglifo de verdade. Este guia separa as duas histórias. A primeira está documentada em museus e bibliotecas, com nomes, datas e cartas que sobrevivem até hoje. A segunda é uma leitura simbólica sem comprovação científica, o que não a torna menos interessante como cultura e como jogo. Puxe as cartas no [tarô online](tool:taro-online) enquanto lê.

J-Kit13 min de leituraIniciante
  • Tarô
  • História das cartas
  • Cartomancia
  • Arcanos

Resumo rápido

  • O tarô nasceu como jogo de cartas de trunfo na Itália do século 15 (tarocchi/trionfi); a ligação com o Egito antigo é um mito inventado em 1781, sem evidência histórica.
  • Etteilla (Jean-Baptiste Alliette) foi o primeiro a popularizar o tarô como ferramenta de adivinhação: um manual em 1783, um baralho próprio em 1789.
  • Um baralho padrão tem 78 cartas: 22 Arcanos Maiores (0 a 21) e 56 Arcanos Menores em 4 naipes de 14 cartas.
  • O baralho de referência hoje é o Rider-Waite-Smith (1909); não há evidência científica de que qualquer tiragem preveja o futuro.

Um jogo de cartas do século 15, não um artefato milenar

O tarô surge documentado nas cortes do norte da Itália entre 1440 e 1450, num raio que cobre Milão, Ferrara e Florença. O jogo se chamava tarocchi (ou, antes disso, trionfi, "triunfos"): um jogo de vazas para várias pessoas em que um naipe extra de 21 cartas, mais O Louco, funcionava como trunfo permanente sobre os quatro naipes comuns. A própria palavra "trunfo", em português, e "trump", em inglês, vem daí, do italiano trionfi via o latim triumphus. Os primeiros baralhos eram objetos de luxo, pintados à mão e com folha de ouro, encomendados por famílias nobres, não vendidos a qualquer um. Não havia nada de místico nisso: era um jogo de cartas caro, do jeito que hoje seria um baralho colecionável de tiragem limitada.

O exemplo mais famoso é o conjunto de baralhos hoje chamado Visconti-Sforza, encomendado por Filippo Maria Visconti, duque de Milão, e por seu genro Francesco Sforza, que o sucedeu no ducado. Análises de marca d'água situam um desses baralhos, o Visconti di Modrone, entre 1441 e 1442; outro, o Cary-Yale, pode ter sido feito para o casamento de Francesco Sforza com Bianca Visconti, também no início dos anos 1440. Nenhum baralho desse período sobreviveu completo. O conjunto mais conhecido tem 35 cartas guardadas hoje no Morgan Library & Museum, em Nova York, mais 26 cartas do mesmo baralho na Accademia Carrara, em Bergamo; a Beinecke Library, da Universidade Yale, guarda outro conjunto (o Cary-Yale) na sua coleção de baralhos históricos. São museus e bibliotecas reais, com peças que qualquer pessoa pode consultar, não relíquias de origem duvidosa.

Tarocchi / Trionfi
Nomes do jogo de cartas de trunfo italiano do século 15 que deu origem ao tarô; trionfi ("triunfos") é o mais antigo, e originou a palavra "trunfo" em dezenas de outros jogos.
Naipe
Cada um dos quatro grupos de 14 cartas do baralho, equivalente aos naipes de um baralho comum de 52 cartas.
Arcano
Termo hoje padrão para as cartas do tarô, do latim arcanum, "segredo". Não é original do jogo do século 15: entrou em uso comum depois, pela tradição ocultista.

O mito egípcio: uma invenção de 1781, não uma origem real

Antoine Court de Gébelin, pastor protestante e escritor francês, afirmou no volume 8 de sua obra Le Monde primitif (1781) que o tarô era um fragmento sobrevivente do lendário Livro de Thoth, um compêndio de sabedoria dos sacerdotes egípcios, e que a própria palavra "tarô" viria do egípcio "tar" (caminho) e "ro" (real). Ele não apresentou nenhuma evidência arqueológica, textual ou linguística, só uma leitura simbólica dos desenhos das cartas. O detalhe que expõe o problema: Court de Gébelin escreveu isso 41 anos antes de Jean-François Champollion decifrar os hieróglifos egípcios, em 1822. Em 1781, literalmente ninguém na Europa conseguia ler uma palavra de egípcio antigo, Court de Gébelin incluído. A ligação com o Egito era, na melhor das hipóteses, um chute erudito.

Apesar de errada, a ideia pegou. No mesmo volume, um colaborador de Court de Gébelin, o Conde de Mellet, publicou um ensaio ligando os 22 trunfos às 22 letras do alfabeto hebraico e à tradição cabalística, outra conexão sem base histórica, mas que se tornou um pilar do tarô esotérico até hoje. Foi esse par de textos de 1781, não qualquer descoberta arqueológica, que transformou um jogo de cartas de salão em "sistema de sabedoria antiga" na imaginação popular europeia.

Etteilla: o nascimento da cartomancia com tarô

O passo de "o tarô é egípcio" para "o tarô prevê o futuro" veio de outra pessoa. Jean-Baptiste Alliette, um comerciante e ocultista parisiense, publicou sob o pseudônimo Etteilla, seu próprio sobrenome escrito de trás para frente, o primeiro manual dedicado a ler o tarô como oráculo, por volta de 1783. Em 1789 foi mais longe: lançou seu próprio baralho, batizado de Livre de Thot ("Livro de Thoth", em homenagem direta à tese de Court de Gébelin), com 78 cartas coloridas à mão e temas egípcios inventados por ele mesmo. Etteilla também deu significados fixos a cada carta, tanto na posição normal quanto invertida, e organizou leituras em posições fixas sobre a mesa, o esqueleto de qualquer tiragem de tarô praticada hoje. Por isso ele é considerado o primeiro a popularizar o tarô especificamente como ferramenta de adivinhação.

  1. 1440-1442O jogo nasce nas cortes italianas

    Os primeiros registros de tarocchi/trionfi aparecem em Florença, Milão e Ferrara; os primeiros baralhos Visconti-Sforza datam desse período.

  2. 1781A tese egípcia

    Antoine Court de Gébelin publica o volume 8 de Le Monde primitif, ligando o tarô ao Egito antigo sem nenhuma evidência histórica.

  3. 1783-1789Etteilla inventa a cartomancia com tarô

    Jean-Baptiste Alliette publica o primeiro manual de leitura e, em 1789, seu próprio baralho oracular, o Livre de Thot.

  4. 1909O baralho padrão moderno

    A. E. Waite e Pamela Colman Smith publicam, pela editora Rider, o baralho que hoje é referência mundial.

O intervalo entre as duas histórias importa: o tarô passou cerca de 300 anos sendo só um jogo de cartas de salão, e levou menos de uma década, entre 1781 e 1789, para ser reinventado como sistema oracular egípcio na imaginação europeia. É essa reinvenção do fim do século 18, não a origem do século 15, que sustenta a leitura mística que se popularizou depois.

A estrutura dos 78 arcanos

Deixando a lenda de lado, a estrutura do baralho é o fato mais fácil de verificar de toda essa história: qualquer baralho de tarô "padrão" tem exatamente 78 cartas, divididas em duas partes. Os 22 Arcanos Maiores, numerados de 0 (O Louco) a 21 (O Mundo) e às vezes chamados de "trunfos", o eco direto do jogo original, representam figuras e temas isolados, como A Morte, A Torre ou A Roda da Fortuna. Os 56 Arcanos Menores se dividem em quatro naipes de 14 cartas cada: do Ás ao 10, mais quatro cartas de corte, Pajem, Cavaleiro, Rainha e Rei.

78cartas no total
22Arcanos Maiores (0 a 21)
56Arcanos Menores, em 4 naipes
14cartas por naipe (Ás a 10 + 4 cortes)
Os quatro naipes dos Arcanos Menores.
NaipeNaipe correspondente no baralho comumTema associado
Paus (Wands)Paus / ClubsEnergia, iniciativa, ação
Copas (Cups)Copas / HeartsEmoções, relações, intuição
Espadas (Swords)Espadas / SpadesMente, conflitos, decisões
Ouros (Pentacles)Ouros / DiamondsTrabalho, dinheiro, o corpo

A conta fecha fácil: 4 naipes vezes 14 cartas (Ás ao 10 são 10 cartas, mais Pajem, Cavaleiro, Rainha e Rei são mais 4) somam 56 cartas menores; somando os 22 maiores, dá exatamente 78. Os quatro naipes remontam aos naipes do baralho comum de 52 cartas, um parentesco visível até hoje, e é por isso que o tarô ainda é jogado como jogo de vazas em partes da Europa (França, Itália, países de língua alemã), quase 600 anos depois de ser criado, sem qualquer conexão com adivinhação.

O baralho padrão moderno: Rider-Waite-Smith, 1909

Praticamente toda imagem de tarô que circula hoje, incluindo o tarô online deste site, descende de um baralho específico, publicado em 1909 pela editora britânica Rider & Son, por encomenda do estudioso A. E. Waite e ilustrado por Pamela Colman Smith. A contribuição mais influente de Smith não foi ligar o tarô a nenhuma tradição nova, foi um detalhe estrutural: até então, os Arcanos Menores traziam só o número de símbolos do naipe (três copas, cinco espadas), sem cena nenhuma. Smith ilustrou as 56 cartas menores como pequenas narrativas visuais, cada uma com uma cena completa, o que tornou o baralho muito mais fácil de "ler" de forma intuitiva. É esse padrão visual, não qualquer descoberta histórica, que a maioria dos baralhos modernos ainda copia.

A história de bastidores é bem documentada e menos alegre. Smith recebeu um pagamento fixo e modesto pelo trabalho, nenhum royalty, e seu nome não apareceu na capa original, só o do editor (Rider) e o de Waite. Por décadas o baralho foi conhecido apenas como "Rider-Waite". A partir dos anos 1970, historiadores do tarô passaram a reivindicar o crédito de Smith, e em 2009, no centenário da publicação, a editora norte-americana U.S. Games Systems lançou o "Smith-Waite Centennial Deck", colocando o nome dela em primeiro lugar. Hoje o baralho é chamado, cada vez mais, de Rider-Waite-Smith ou Waite-Smith, em reconhecimento a um trabalho que sustenta a indústria do tarô há mais de um século.

Tiragens comuns, e o que a ciência diz sobre elas

Como qualquer jogo de cartas antigo, o tarô moderno tem "tiragens" (spreads) padronizadas: arranjos fixos de cartas na mesa que organizam a leitura. Três são particularmente comuns e estão disponíveis no tarô online deste site:

  1. Carta únicaUma carta só, puxada para um foco do dia ou uma pergunta pontual. É a tiragem mais simples e a mais usada para uma leitura rápida.
  2. Três cartas: passado, presente, futuroTrês cartas em linha, lidas como passado, presente e futuro. É a tiragem mais comum depois da carta única, por caber em quase qualquer pergunta.
  3. Cruz CeltaDez cartas em posições fixas (situação atual, desafio, passado, futuro, o que está acima, o que está abaixo, conselho, influências externas, esperanças e medos, resultado). É a tiragem mais elaborada em uso corrente.
Tire a carta do dia, uma tiragem de três cartas ou a Cruz Celta completa, com significados normais e invertidos.Abrir a ferramenta em página inteira

Se o que te interessa é a mesma pergunta aplicada a outro sistema simbólico, o guia de como um mapa astral é calculado documenta a mesma separação entre astronomia exata e leitura sem comprovação, e o guia Big Five contra o MBTI mostra a diferença entre um modelo de personalidade testado e um que não é. Se prefere números fixos em vez de cartas, o guia de numerologia percorre um mito de origem parecido.

Perguntas frequentes

O tarô é de origem egípcia?
Não. A origem documentada do tarô é a Itália do século 15, como jogo de cartas de trunfo. A ligação com o Egito antigo foi proposta em 1781 por Antoine Court de Gébelin, sem evidência arqueológica ou linguística, décadas antes de os hieróglifos egípcios serem decifrados. É um mito do século 18, não um fato histórico.
Quem inventou a leitura do tarô como adivinhação?
Jean-Baptiste Alliette, sob o pseudônimo Etteilla, é creditado como o primeiro a popularizar o tarô especificamente como ferramenta de adivinhação: publicou um manual de leitura por volta de 1783 e, em 1789, seu próprio baralho oracular, o Livre de Thot.
Quantas cartas tem um baralho de tarô e como elas se dividem?
Um baralho padrão tem 78 cartas: 22 Arcanos Maiores, numerados de 0 a 21, e 56 Arcanos Menores, divididos em quatro naipes (Paus, Copas, Espadas, Ouros) de 14 cartas cada, do Ás ao 10 mais Pajem, Cavaleiro, Rainha e Rei.
Qual é o baralho de tarô mais usado hoje?
O Rider-Waite-Smith, publicado em 1909 pela editora Rider, por encomenda de A. E. Waite e ilustrado por Pamela Colman Smith. Foi o primeiro a dar uma cena completa a cada uma das 56 cartas menores, um padrão visual que a maioria dos baralhos modernos ainda segue.
Qual é a diferença entre os Arcanos Maiores e os Menores?
Os 22 Arcanos Maiores são cartas isoladas, numeradas de 0 a 21, sem naipe, cada uma com um tema próprio (A Morte, A Torre, O Mundo). Os 56 Arcanos Menores funcionam como um baralho comum ampliado, em quatro naipes de 14 cartas, com números e cartas de corte.
O tarô tem comprovação científica de que funciona?
Não. Não há estudo controlado que mostre o tarô prevendo eventos reais acima do acaso. O efeito de uma leitura parecer "certeira" é explicado por mecanismos psicológicos conhecidos, como a leitura fria e o efeito Barnum, não por qualquer poder preditivo das cartas.

O tarô tem uma história documentada e uma lenda, e as duas não são a mesma coisa. A parte documentada: um jogo de cartas de trunfo da Itália do século 15 (tarocchi/trionfi), com baralhos Visconti-Sforza guardados em museus reais, que virou ferramenta de adivinhação só a partir de 1781-1789, pela dupla Court de Gébelin (o mito egípcio) e Etteilla (a primeira cartomancia). A estrutura de 78 cartas, 22 Arcanos Maiores e 56 Menores em 4 naipes, é um fato simples de verificar, e o baralho de referência de hoje, o Rider-Waite-Smith de 1909, tem sua própria história documentada de crédito tardio a Pamela Colman Smith. A interpretação das cartas é tradição cultural e exercício de autorreflexão, não previsão validada por ciência nenhuma.

Fontes e referências

  1. The Metropolitan Museum of Art, "Before Fortune-Telling: The History and Structure of Tarot Cards"
  2. The Morgan Library & Museum, "Tarot! Renaissance Symbols, Modern Visions"
  3. Yale University Library, "In the cards: Library partners work together to solve mysteries of rare tarot deck"
  4. Public Domain Review, "Etteilla's Livre de Thot Tarot (ca. 1789)"
  5. Tarot Heritage, "Tarot History Chronology"
  6. U.S. Games Systems, "Smith-Waite Centennial Tarot Deck"