O modelo MET: energia em múltiplos do repouso
MET significa “metabolic equivalent of task” (equivalente metabólico da tarefa). Por convenção, 1 MET é o gasto de energia em repouso sentado, aproximadamente 3,5 mL de oxigênio por quilo de corpo por minuto, ou cerca de 1 kcal por kg por hora. Uma atividade de 8 MET custa oito vezes esse repouso. Assim, o MET vira uma “etiqueta de intensidade” que independe do seu peso: caminhar rápido é ~5 MET para qualquer pessoa; o peso entra depois, na hora de converter em calorias. A grande vantagem do modelo é comparar coisas diferentes na mesma escala, pedalar, nadar e subir escada passam a ter um número que você consegue confrontar.
- MET
- Razão entre o gasto de uma atividade e o gasto em repouso. 1 MET = repouso; 10 MET = dez vezes mais intenso. É um número adimensional, uma razão, não uma medida sua.
- VO₂ de repouso
- O consumo de oxigênio em repouso, convencionado em 3,5 mL/kg/min, a base do cálculo. Foi calibrado num homem de referência de 70 kg e 40 anos.
- Equivalente calórico do O₂
- Aproximadamente 5 kcal são liberadas por litro de oxigênio consumido (varia de ~4,8 a ~5,0 conforme o combustível queimado); é o que fecha a conversão em calorias.
O MET não caiu do céu: ele foi tabelado. O Compêndio de Atividades Físicas atribuiu um valor a centenas de atividades a partir de medições de calorimetria, e virou a referência que quase todo app e planilha usa por baixo dos panos. Ele já foi atualizado três vezes desde a estreia, e alguns números mudaram no caminho.
- 1993Primeiro compêndio
Ainsworth e colegas publicam a versão original, codificando o custo energético das atividades em MET para padronizar estudos de epidemiologia.
- 2000Primeira atualização
Expansão da lista e revisão de códigos, consolidando o compêndio como referência internacional.
- 2011Segunda atualização
A versão de 2011 é a que a maioria das calculadoras (inclusive a desta página) ainda usa. Corrida a 10 km/h vira 9,8 MET; caminhada rápida, 5,0 MET.
- 2024Terceira atualização
O “2024 Adult Compendium” traz 1.114 atividades, 303 novas, e revisa 176 valores de MET, inclusive removendo estimativas específicas para idosos. Nem toda calculadora migrou.
A fórmula (e de onde vem cada número)
A calculadora de calorias por atividade usa a equação metabólica baseada em MET. A versão de baixo é o gasto líquido, que só desconta o repouso, voltamos a ela mais adiante.
kcal/min = (MET × 3.5 × kg) / 200
kcal_liquida/min = ((MET − 1) × 3.5 × kg) / 200- MET
- a intensidade da atividade, do compêndio
- 3.5
- o VO₂ de 1 MET, em mL de O₂ por kg por minuto
- kg
- seu peso corporal em quilos
- 200
- a constante que junta “dividir por 1000 (mL→L)” e “multiplicar por 5 kcal/L”
- MET − 1
- desconta o 1 MET de repouso que você gastaria de qualquer jeito
O “200” não é mágico, dá para derivá-lo em quatro passos. Primeiro, o consumo de oxigênio por minuto é MET × 3,5 × peso, em mililitros (porque 3,5 já está em mL/kg/min e você multiplica pelos quilos). Segundo, divida por 1000 para passar de mililitros para litros por minuto. Terceiro, multiplique por ~5 kcal, a energia liberada por litro de O₂. Junte os dois últimos: multiplicar por 5 e dividir por 1000 é o mesmo que dividir por 200, porque 1000 ÷ 5 = 200. Sobra kcal/min = (MET × 3,5 × peso) ÷ 200. A fórmula inteira é só oxigênio virando calor.
Exemplo trabalhado 1, a mesma corrida, dois pesos. Corrida a 10 km/h vale 9,8 MET; suponha 30 minutos. Para 60 kg: kcal/min = (9,8 × 3,5 × 60) ÷ 200 = 2.058 ÷ 200 = 10,29 kcal/min; em 30 min, ≈ 309 kcal. Para 90 kg: kcal/min = (9,8 × 3,5 × 90) ÷ 200 = 3.087 ÷ 200 = 15,44 kcal/min; em 30 min, ≈ 463 kcal. Repare na linearidade exata: 90 ÷ 60 = 1,5 e, de fato, 463 ÷ 309 = 1,5. O gasto é diretamente proporcional ao peso, nada de curvas, nada de mágica; mover um corpo 50% mais pesado custa 50% mais oxigênio no mesmo ritmo.
Exemplo trabalhado 2, bruto vs. líquido, as calorias que “somem”. Caminhada rápida (5,0 MET), 70 kg, 45 minutos. Bruto: kcal/min = (5,0 × 3,5 × 70) ÷ 200 = 1.225 ÷ 200 = 6,13 kcal/min; em 45 min, ≈ 276 kcal, é o que a calculadora mostra. Líquido: use (5,0 − 1) no lugar de 5,0: (4,0 × 3,5 × 70) ÷ 200 = 980 ÷ 200 = 4,9 kcal/min; em 45 min, ≈ 221 kcal. Diferença: 276 − 221 = 55 kcal. Essas 55 kcal são exatamente o 1 MET de repouso que você gastaria sentado nesses mesmos 45 minutos (1 × 3,5 × 70 ÷ 200 × 45 = 55). Ou seja, ~20% do número “desaparecem” quando você conta apenas o que o exercício acrescentou.
MET de atividades comuns
Estes são os valores de MET que a calculadora aplica, todos do Compêndio de Atividades Físicas (edição de 2011, ainda a mais usada em software). Use-os para comparar intensidades: dobrar o MET dobra o gasto por minuto.
| Atividade | MET |
|---|---|
| Ioga | 2,5 |
| Caminhada moderada | 3,5 |
| Caminhada rápida | 5,0 |
| Natação moderada | 5,8 |
| Musculação vigorosa | 6,0 |
| Ciclismo leve/lazer | 6,8 |
| Futebol | 7,0 |
| Corrida a 8 km/h | 8,3 |
| Corrida a 10 km/h | 9,8 |
| Ciclismo vigoroso | 10,0 |
| Pular corda | 11,0 |
| Corrida a 12 km/h | 11,8 |
Traduzindo MET em calorias para um peso fixo, a diferença de magnitude fica óbvia. O gráfico abaixo usa uma pessoa de 70 kg (o peso de referência do modelo) e a fórmula kcal/hora = MET × 3,5 × 70 ÷ 200 × 60 = MET × 73,5. Pular corda a 11 MET gasta mais que quatro vezes uma hora de ioga, mas quase ninguém pula corda por uma hora, e é por isso que duração e intensidade sustentável importam tanto quanto o MET.
Ver os dados
| Categoria | Valor |
|---|---|
| Ioga | 184 kcal |
| Caminhada moderada | 257 kcal |
| Caminhada rápida | 368 kcal |
| Musculação vigorosa | 441 kcal |
| Futebol | 515 kcal |
| Corrida 10 km/h | 720 kcal |
| Ciclismo vigoroso | 735 kcal |
| Pular corda | 809 kcal |
| Corrida 12 km/h | 867 kcal |
Experimente na própria ferramenta: troque o peso e a duração e veja o total se mover. Ela também mostra referências rápidas (por 30 min, por hora) e equivalências ilustrativas.
Por que 3,5 não serve para todo mundo
Aqui está o viés que quase nenhuma calculadora conta. O 3,5 mL/kg/min de 1 MET foi tirado de um homem de 70 kg e 40 anos e depois generalizado para toda a humanidade. Mas o gasto de repouso por quilo cai com a idade, é menor em média nas mulheres e é diluído por mais gordura corporal (a gordura consome pouquíssimo oxigênio parada). Byrne e colegas (2005) mediram o repouso real de 769 adultos e encontraram uma média de 2,6 mL/kg/min, cerca de 26% abaixo do padrão. Dito de outro modo, o valor convencional de 3,5 superestima o repouso verdadeiro em ~35%.
Como esse 3,5 está multiplicando tudo, o erro se propaga: se o seu repouso real é 2,6 e não 3,5, cada MET representa uma fração maior do seu metabolismo do que o modelo assume, e o gasto informado tende a vir inflado, mais para mulheres, pessoas mais velhas e pessoas com mais gordura corporal. Não é o único motivo de o número ser aproximado; a lista abaixo reúne os que mais pesam.
- Condicionamento e técnica: quem corre bem gasta menos energia no mesmo ritmo do que um iniciante.
- Composição corporal: mais massa magra eleva o gasto e mais gordura o dilui, e o MET não enxerga isso, veja IMC vs. percentual de gordura.
- Idade e sexo mudam o custo real da mesma atividade, exatamente o que o 3,5 fixo ignora.
- Terreno, inclinação, vento, calor e altitude alteram o esforço de um mesmo “tipo” de exercício.
- O equivalente calórico do O₂ (5 kcal/L) também é uma média; varia com o combustível queimado (~4,8 a ~5,0).
Por que o 3,5 mL/kg/min não representa você
É a média de um homem de 70 kg. Mulheres, idosos e pessoas com mais gordura costumam ter repouso por quilo menor, então o modelo parte de uma base alta demais e infla o resultado. Não há como corrigir isso dentro da calculadora sem medir seu VO₂ de repouso em laboratório, por isso o número certo é “estimativa”, não “medida”.
Gasto bruto vs. líquido: o que “conta” de verdade
Bruto é tudo o que você queimou durante o exercício, inclusive o repouso que aconteceria de qualquer jeito. Líquido é só o acréscimo: (MET − 1) × 3,5 × peso ÷ 200. Nas atividades leves a diferença é grande, na caminhada rápida de 5 MET, o líquido é 4/5 do bruto, 20% a menos. Na corrida de 9,8 MET, o líquido é 8,8/9,8, ~90% do bruto, só ~10% a menos. Quanto mais leve e longa a atividade, mais o bruto exagera o que ela “acrescentou”.
EPOC: o “afterburn” existe, mas é pequeno
Depois do treino você continua consumindo um pouco mais de oxigênio para se recuperar, o EPOC. Em revisões, ele fica em torno de 6% a 15% do custo líquido de O₂ da sessão, tipicamente ~7%. Num treino que gastou 500 kcal líquidas, isso é cerca de 35 kcal extras, real, mas irrelevante para uma dieta. O EPOC não transforma um treino curto em um grande gasto.
Compensação: o corpo “devolve” parte do gasto
Somar exercício não soma linearmente ao gasto do dia. No modelo de “gasto energético total restrito” de Pontzer e colegas (2016), com mais atividade o corpo tende a cortar o gasto em outras funções, e o total do dia se estabiliza numa faixa. Em intervenções de exercício aeróbico, o gasto diário sobe só cerca de 30% do que a soma ingênua previa. É mais um motivo para não tratar as calorias de cada treino como dinheiro no bolso.
Gasto por atividade vs. TDEE (e o erro de “comer de volta”)
Calorias por atividade (MET)
- Estima o gasto de uma sessão específica de exercício.
- Depende de MET, peso e tempo daquela atividade.
- Reporta o bruto, inclui o repouso ocorrido durante o exercício.
TDEE (gasto diário total)
- Estima o gasto do dia inteiro: repouso + tudo o que você faz.
- É a TMB multiplicada por um fator de atividade.
- Já embute, de forma geral, o movimento típico da sua rotina.
O erro clássico de “comer de volta o treino” nasce de três somas indevidas ao mesmo tempo: o número é bruto (não líquido), o TDEE que você já usa costuma pressupor treinos, e o corpo compensa parte do gasto. Se o seu TDEE tem fator “ativo”, esse fator já supõe que você treina, então somar por cima todas as calorias de cada sessão duplica parte do gasto. Ou use um TDEE mais baixo (sedentário/leve) e some os treinos pelo líquido, ou use um TDEE mais alto e não some. Para calibrar a intensidade e ficar na zona certa, a frequência cardíaca de treino ajuda, veja também zonas de frequência cardíaca. E para a lógica de TMB e TDEE por trás disso, o guia IMC, TMB e TDEE.
E os “10.000 passos”?
A meta de 10.000 passos que aparece no seu relógio não veio de nenhum estudo. Ela nasceu de marketing: em 1965, a empresa japonesa Yamasa lançou um pedômetro chamado Manpo-kei, que significa literalmente “medidor de 10.000 passos”, na esteira do entusiasmo pós-Olimpíadas de Tóquio de 1964. O número era um slogan redondo e fácil de lembrar, não um achado científico. A ciência veio depois, e apontou para valores menores.
Lee e colegas (2019, JAMA Internal Medicine) acompanharam 16.741 mulheres com idade média de 72 anos. Comparadas ao quartil de menos passos (mediana 2.718/dia), as mulheres em cerca de 4.363 passos/dia já tinham risco de morte ~41% menor (hazard ratio 0,59), e o benefício continuava até estabilizar por volta de 7.500 passos/dia, bem abaixo dos 10.000. A meta-análise de Paluch e colegas (2022, Lancet Public Health), com 47.471 adultos e 3.013 mortes, encontrou o mesmo formato: o risco cai com mais passos até um platô em torno de 6.000–8.000/dia para quem tem 60 anos ou mais e 8.000–10.000/dia para os mais jovens. A mensagem é consistente: mais passos ajudam, o ganho é maior saindo do sedentarismo, e não existe nada mágico no 10.000.
O elo com este guia é direto: contar passos e contar calorias sofrem do mesmo mal-entendido. São réguas úteis para comparar e para se manter em movimento, mas os números-alvo redondos escondem médias e vieses. Use-os para criar hábito, não para perseguir uma casa decimal.
Perguntas frequentes
O que é MET, de forma simples?
Por que quem pesa mais queima mais calorias na mesma atividade?
O número da calculadora é gasto bruto ou líquido?
O 3,5 mL/kg/min vale para mim?
Posso somar as calorias do treino ao meu TDEE?
O “afterburn” (EPOC) queima muitas calorias depois do treino?
Preciso mesmo dar 10.000 passos por dia?
Toda calculadora de calorias por exercício é, no fundo, oxigênio virando energia: kcal/min = (MET × 3,5 × peso) ÷ 200. Mas o 3,5 é um repouso de referência que superestima o de muita gente, e o número é bruto, o líquido, (MET − 1) × 3,5 × peso ÷ 200, é menor. É uma ótima régua para comparar atividades e criar hábito; não é uma medida do seu corpo nem calorias para “comer de volta”.
Fontes e referências
- Herrmann, Willis, Conger, Ainsworth et al. (2024), 2024 Adult Compendium of Physical Activities (J Sport Health Sci)
- Compêndio de Atividades Físicas, site oficial (valores de MET)
- Byrne et al. (2005), Metabolic equivalent: one size does not fit all (J Appl Physiol)
- Pontzer et al. (2016), Constrained Total Energy Expenditure (Current Biology)
- LaForgia et al. (2006), EPOC: intensidade e duração (J Sports Sci)
- Lee et al. (2019), Passos e mortalidade em mulheres idosas (JAMA Intern Med)
- Paluch et al. (2022), Passos e mortalidade: meta-análise de 15 coortes (Lancet Public Health)