Estatística

Correlação não é causalidade: o que o r e o R² realmente dizem

"Correlação não é causalidade" virou bordão, e, como todo bordão, é repetido por gente que não saberia dizer o que a correlação de fato mede. O r de Pearson comprime a relação entre duas variáveis num único número entre −1 e 1. É poderoso e enganoso na mesma medida: enxerga apenas retas, é cego a curvas, e um R² alto não prova nem modelo bom nem causa. Este guia mostra o que o r vê, o que ele não consegue ver, por que o R² é rotineiramente mal lido, e fecha com o experimento que todo cientista de dados deveria repetir uma vez: o Quarteto de Anscombe. Teste as ideias na [calculadora de correlação](tool:calculadora-correlacao) e na [regressão linear](tool:calculadora-regressao-linear) enquanto lê.

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Resumo rápido

  • O r de Pearson mede só associação linear; r = 0 não é independência (y = x² num domínio simétrico tem r = 0).
  • R² é a fração da variância de y explicada pelo modelo, não é "qualidade" nem prova de causa; R² = r² só na regressão simples.
  • O Quarteto de Anscombe: quatro conjuntos com r, R² e reta idênticos e formas radicalmente diferentes. Plote sempre.
  • Correlação vira evidência causal apenas com aleatorização e/ou o peso convergente dos critérios de Bradford Hill.

O que o r de Pearson realmente mede

O coeficiente de correlação de Pearson mede uma coisa muito específica: quão bem os pontos (x, y) se alinham sobre uma reta. Ele vale +1 quando todos caem exatamente numa reta ascendente, −1 quando caem numa reta descendente, e 0 quando não há inclinação linear alguma. O sinal dá o sentido; o módulo, o aperto da nuvem em torno da reta. Duas propriedades o tornam elegante: ele é adimensional e não muda se você reescalar ou deslocar os eixos, medir altura em centímetros ou em polegadas devolve exatamente o mesmo r.

r = Σ(xᵢ − x̄)(yᵢ − ȳ) / √[ Σ(xᵢ − x̄)² · Σ(yᵢ − ȳ)² ]
r
coeficiente de correlação, sempre entre −1 e 1
xᵢ, yᵢ
cada par observado de valores
x̄, ȳ
as médias de x e de y
Σ
soma sobre as n observações
O r de Pearson: a covariância de x e y padronizada pelos desvios de cada um.

Repare no que a fórmula faz: ela pega a covariância, o quanto x e y variam juntos, e a padroniza dividindo pelos desvios-padrão de cada variável. Por isso o r é a "covariância sem unidade", presa entre −1 e 1. E aqui está a palavra que quase todo mundo esquece: linear. O r mede associação linear. Ele não sabe o que é uma parábola.

Um contraexemplo fecha a questão. Tome cinco pontos simétricos em torno de zero: x = −2, −1, 0, 1, 2, e y = x², ou seja y = 4, 1, 0, 1, 4. A relação é perfeita e determinística, dado x, você sabe y exatamente. Mesmo assim, r = 0. A média de x é zero, e a soma dos produtos xᵢ·yᵢ é (−2·4) + (−1·1) + (0·0) + (1·1) + (2·4) = −8 − 1 + 0 + 1 + 8 = 0, então a covariância é zero e o r também. A conclusão vale ouro: r = 0 não significa independência, significa apenas ausência de tendência linear. Uma variável pode determinar a outra por completo e ainda ter correlação zero.

Covariância, resíduo e o vocabulário exato

Cinco palavras costumam ser usadas de forma intercambiável, e não são a mesma coisa. A regressão linear traça a reta que minimiza a soma dos quadrados dos resíduos; o r padroniza a covariância; o R² eleva o r ao quadrado (na regressão simples). Fixe cada termo abaixo com a definição precisa antes de seguir.

Covariância
Mede como x e y variam em conjunto: positiva quando sobem juntas, negativa quando uma sobe e a outra desce. Sua magnitude depende das unidades, o que a torna difícil de interpretar sozinha, por isso é padronizada em r.
r (correlação de Pearson)
A covariância dividida pelos dois desvios-padrão: um número entre −1 e 1 que mede só a força e o sentido da associação linear entre x e y.
R² (coeficiente de determinação)
A fração da variância de y que o modelo explica, entre 0 e 1. Na regressão linear simples, R² = r². O sinal se perde: R² não diz se a relação é positiva ou negativa.
Resíduo
A diferença entre o valor observado de y e o previsto pela reta (yᵢ − ŷᵢ). A regressão de mínimos quadrados escolhe justamente a reta que minimiza a soma desses resíduos ao quadrado.
Variável confundidora
Uma terceira variável que influencia x e y ao mesmo tempo, criando correlação entre eles sem que um cause o outro (por exemplo, a temperatura ligando sorvete e afogamentos).

Os desvios-padrão no denominador do r são exatamente o que a calculadora de desvio padrão devolve para uma lista de números, média, variância e desvio, populacional ou amostral. Cole os seus dados e veja a dispersão que alimenta a fórmula; a mesma média que aparece ali é a que você obtém na calculadora de média, mediana e moda.

Calcule média, variância e desvio-padrão da sua própria lista, os números que entram no r.Abrir a ferramenta em página inteira

R² não é "qualidade" nem prova de causa

O R², ou coeficiente de determinação, tem uma definição precisa: é a fração da variância de y que o modelo explica. Se a variância total de y é a "bagunça" que você quer entender, o R² diz que pedaço dessa bagunça a reta dá conta. Um R² de 0,667 significa que o modelo explica cerca de dois terços da variação de y; o terço restante fica nos resíduos. Na regressão linear simples, uma única variável explicativa, vale a igualdade R² = r². No Quarteto de Anscombe, r = 0,816, logo R² = 0,816² ≈ 0,667.

0,816r nos quatro conjuntos de Anscombe
0,667R² = r² na regressão simples
≈ 67%da variância de y "explicada" pela reta

Rode a mesma nuvem de pontos na calculadora de regressão linear e compare o R² que ela reporta com o r da calculadora de correlação: na regressão simples, um é exatamente o quadrado do outro. Quando alguém troca um número forte por uma conclusão forte, é aqui que o erro começa, o mesmo risco de qualquer índice-resumo, como o IMC, que comprime o corpo num só número e esconde a composição real.

O clímax: o Quarteto de Anscombe

Em 1973, o estatístico Francis Anscombe publicou quatro conjuntos de onze pontos cada com um objetivo provocador: mostrar que as estatísticas resumidas podem coincidir enquanto os dados não têm nada em comum. Os quatro conjuntos têm a mesma média de x (9), a mesma média de y (7,50), a mesma variância, o mesmo r (0,816), o mesmo R² (0,667) e exatamente a mesma reta de regressão, y = 3,00 + 0,500x. Um relatório que só mostrasse esses números declararia os quatro idênticos.

02,715,428,1310,844914xyConjunto I (nuvem linear)Conjunto II (parábola)
Dados de Anscombe (1973): os conjuntos I e II têm o mesmo x, o mesmo r ≈ 0,816 e a mesma reta, mas o I é uma nuvem linear e o II é uma parábola.
Ver os dados
xConjunto I (nuvem linear)Conjunto II (parábola)
44,263,1
55,684,74
67,246,13
74,827,26
86,958,14
98,818,77
108,049,14
118,339,26
1210,849,13
137,588,74
149,968,1

O gráfico desmonta a ilusão. O conjunto I é o que você imagina ao ouvir "r = 0,82": uma nuvem ruidosa em torno de uma reta. O conjunto II não tem ruído nenhum, é uma parábola limpa, que sobe e depois desce, e a reta de regressão a atravessa por cima sem descrever nada. Os conjuntos III e IV são ainda mais traiçoeiros: o III é uma reta quase perfeita com um único outlier que entorta a inclinação, e o IV é uma coluna vertical de pontos em x = 8 mais um único ponto distante em x = 19, esse ponto sozinho cria toda a "correlação". Quatro histórias opostas, um único conjunto de números.

Os quatro conjuntos de Anscombe e suas estatísticas idênticas (arredondadas).
EstatísticaConjunto IConjunto IIConjunto IIIConjunto IV
Média de x9999
Variância de x (amostral)11111111
Média de y7,507,507,507,50
Variância de y (amostral)4,1254,1254,1254,125
Correlação r0,8160,8160,8160,816
0,6670,6670,6670,667
Reta de regressãoy = 3,00 + 0,500xy = 3,00 + 0,500xy = 3,00 + 0,500xy = 3,00 + 0,500x

O Quarteto ganhou uma versão moderna e bem-humorada: o "Datasaurus Dozen" de Matejka e Fitzmaurice (2017), treze conjuntos com médias, desvios e correlação praticamente iguais até a segunda casa decimal, um deles em forma de dinossauro. A lição é a mesma de 1973, agora animada: nenhuma estatística resumida substitui olhar para o gráfico.

Pearson, Spearman e heterocedasticidade

Se o r de Pearson é cego a curvas e sensível a outliers, o que fazer quando a relação claramente existe mas não é uma reta? Se ela for monotônica, y sempre cresce (ou sempre decresce) quando x cresce, mesmo que a taxa mude, a correlação de Spearman é a ferramenta certa. Ela é simplesmente o r de Pearson calculado sobre os postos (ranks) dos dados, e não sobre os valores brutos, o que a torna robusta a outliers e capaz de captar qualquer tendência monotônica, linear ou não.

Quando usar Spearman em vez de Pearson?

Use Spearman em três situações: quando a relação é monotônica mas não linear (uma curva que só sobe, por exemplo), quando há outliers que distorcem o Pearson, e quando os dados são ordinais, postos, notas, posições de ranking. Como o Spearman trabalha com os postos, ele ignora a escala exata dos valores e enxerga apenas a ordem, o que o deixa imune a transformações que preservem a ordem (log, raiz) e a pontos extremos isolados.

O que é heterocedasticidade?

É quando a variância dos resíduos não é constante ao longo de x, o "leque" que se abre num gráfico de dispersão, com pouca dispersão de um lado e muita do outro. A regressão de mínimos quadrados ainda dá estimativas não enviesadas dos coeficientes, mas os erros-padrão ficam errados, o que invalida testes de significância e intervalos de confiança. É por isso que se olham os resíduos: um padrão neles (um leque, uma curva) avisa que a hipótese do modelo foi violada, exatamente o que acontece no conjunto II de Anscombe, cujos resíduos desenham a curva que a reta ignorou.

De correlação a causa: o que falta

A correlação vira armadilha quando uma terceira variável, escondida, move as duas ao mesmo tempo. O exemplo clássico de sala de aula: as vendas de sorvete sobem junto com o número de afogamentos. Ninguém acredita que sorvete afogue alguém, o que sobe nos dois casos é o termômetro. O calor leva as pessoas a comprar sorvete e, ao mesmo tempo, a nadar mais, então os afogamentos aumentam. A temperatura é a variável confundidora; a correlação sorvete–afogamento é espúria. É um exemplo didático, não um dado medido, mas ilustra o mecanismo com precisão. O projeto Spurious Correlations, de Tyler Vigen, leva a ideia ao limite, pareando automaticamente milhares de séries que sobem juntas por puro acaso.

Então o que eleva uma correlação a evidência de causa? Duas linhas de ataque. A primeira é a aleatorização: num experimento controlado, você sorteia quem recebe o tratamento, o que quebra por construção qualquer variável confundidora, é por isso que o ensaio clínico randomizado é considerado padrão-ouro. A segunda, quando o experimento é impossível ou antiético (não se sorteia quem vai fumar), são os nove pontos de vista que Austin Bradford Hill propôs em 1965 para julgar se uma associação é causal. Ele mesmo os chamou de "pontos de vista", não de checklist: nenhum é obrigatório, e o peso convergente de vários é o que constrói o argumento.

  • Força, quanto mais forte a associação, menos provável que seja só confundimento.
  • Consistência, o efeito se repete em populações, lugares e estudos diferentes.
  • Especificidade, a causa liga-se a um efeito bem definido.
  • Temporalidade, a causa precede o efeito (o único critério indispensável).
  • Gradiente biológico, mais exposição, mais efeito (dose-resposta).
  • Plausibilidade, existe um mecanismo que torna a causa crível.
  • Coerência, a hipótese não contradiz o que já se sabe.
  • Evidência experimental, intervir muda o desfecho.
  • Analogia, causas semelhantes produzem efeitos semelhantes.

Perguntas frequentes

Correlação implica causalidade?
Não. Uma correlação pode surgir de causa direta, causa reversa, de uma variável confundidora (como a temperatura ligando sorvete e afogamentos) ou de coincidência. Para afirmar causa é preciso aleatorização, um experimento controlado, ou um conjunto convergente de evidências como os critérios de Bradford Hill.
Qual a diferença entre r e R²?
O r (−1 a 1) mede a força e o sentido da associação linear. O R² (0 a 1) é a fração da variância de y explicada pelo modelo. Na regressão linear simples, R² = r²: um r de 0,816 vira um R² de 0,667. O sinal se perde ao elevar ao quadrado, então o R² não diz se a relação é positiva ou negativa.
r = 0 significa que não há relação nenhuma?
Não. r = 0 significa ausência de relação linear. Pode haver uma relação forte e determinística, como y = x² num domínio simétrico em torno de zero, com r exatamente zero. É por isso que o gráfico é insubstituível: o r não enxerga curvas.
Quando usar Spearman em vez de Pearson?
Use Spearman quando a relação é monotônica mas não linear, quando há outliers que distorcem o Pearson, ou quando os dados são ordinais (postos, notas). O Spearman é o Pearson aplicado aos postos dos dados, o que o torna robusto e sensível a qualquer tendência que só cresça ou só decresça.
Um R² alto significa que o modelo é bom?
Não necessariamente. O conjunto II de Anscombe tem R² = 0,667 e um modelo linear completamente inadequado (os dados são uma curva). Um R² alto pode acompanhar um modelo errado, e na regressão múltipla ele sempre sobe quando você adiciona variáveis, mesmo inúteis. Olhe os resíduos e o gráfico, não só o R².

O r de Pearson e o R² são resumos poderosos, mas cegos: medem o alinhamento a uma reta e a fração da variância explicada, nada além disso. O Quarteto de Anscombe prova que números idênticos podem esconder dados opostos, então plote sempre antes de confiar. E lembre-se de que nenhuma correlação, por mais forte, vira causa sem aleatorização ou o julgamento cuidadoso dos critérios de Bradford Hill.

Fontes e referências

  1. Anscombe, F. J. (1973). "Graphs in Statistical Analysis", The American Statistician 27(1), 17–21
  2. Anscombe (1973), texto integral em PDF
  3. Matejka & Fitzmaurice (2017), "Same Stats, Different Graphs" (Datasaurus Dozen), ACM CHI
  4. Hill, A. B. (1965). "The Environment and Disease: Association or Causation?", Proc. R. Soc. Med. 58(5)
  5. Tyler Vigen, Spurious Correlations