Matemática e estatística

Distribuição normal sem mistério

A curva em forma de sino aparece em tudo: notas de prova, altura, erro de medição, resultados de testes de hipótese. Mesmo assim, muita gente usa a distribuição normal como uma receita decorada: acha o z na tabela, lê um número e torce para ter olhado a coluna certa. O mistério some quando você entende três ideias simples. Primeiro, a curva só precisa de dois números, a média e o desvio padrão. Segundo, o z-score troca a unidade original por "quantos desvios padrão acima ou abaixo da média", o que permite comparar coisas que não têm nada a ver. Terceiro, probabilidade é área sob a curva, e toda pergunta do tipo "qual a chance de passar de X?" é só escolher a área certa. Este guia percorre essas ideias com números conferidos pela [calculadora de distribuição normal](tool:calculadora-distribuicao-normal), mostra o gráfico da curva e fecha com os erros que mais enganam.

J-Kit9 min de leituraIntermediário
  • Distribuição normal
  • Z-score
  • Regra 68-95-99,7
  • Valor-p
  • Estatística

Resumo rápido

  • A normal é definida por μ (média) e σ (desvio padrão). Toda pergunta de probabilidade vira uma área sob a curva.
  • z = (x − μ) ÷ σ diz quantos desvios padrão x está da média. É o que permite comparar 82 pontos numa prova com 640 em outra.
  • A regra 68-95-99,7 é aproximação: os valores exatos são 68,27%, 95,45% e 99,73%. E só vale se os dados forem de fato aproximadamente normais.
  • Um z de 1,96 dá valor-p bilateral de 0,05, e o corte unilateral de 5% é 1,645. Confundir os dois é um dos erros mais comuns em testes de hipótese.

O que a curva normal descreve

A distribuição normal é uma curva simétrica, mais alta no meio e que cai rápido para os dois lados. O manual de estatística do NIST escreve sua densidade com dois parâmetros: μ, o parâmetro de posição, que diz onde fica o centro, e σ, o parâmetro de escala, que diz quão aberta é a curva. O caso μ = 0 e σ = 1 é chamado de normal padrão. Mudar μ desloca a curva para os lados sem alterar sua forma; aumentar σ a achata e alarga, porque a mesma área total (que é sempre 1) precisa se espalhar mais.

f(x) = exp( −(x − μ)² ÷ (2σ²) ) ÷ ( σ × √(2π) )
μ
a média, o centro da curva.
σ
o desvio padrão, que controla a largura.
x
o valor cuja altura da curva você quer.
A densidade da normal. Ela só diz a altura da curva em cada ponto; quem responde "qual a chance" é a área sob ela.
00,10,20,30,4-404Distância da média (em unidades de x)Densidadeσ = 1σ = 2
A curva normal padrão (σ = 1) e uma mais aberta (σ = 2), de −4 a 4. As duas têm área total 1, por isso a de σ = 2 é mais baixa. Pico da padrão: 0,3989.
Ver os dados
xσ = 1σ = 2
-400,03
-300,06
-20,050,12
-10,240,18
00,40,2
10,240,18
20,050,12
300,06
400,03

Z-score: medir tudo em desvios padrão

Para consultar uma tabela de normal padrão, qualquer valor precisa ser convertido. A página de tabela do NIST orienta exatamente isso: padronize o valor subtraindo a média e dividindo pelo desvio padrão, e depois procure o resultado. Esse resultado é o z-score, e ele não tem unidade: é "quantos desvios padrão acima (positivo) ou abaixo (negativo) da média".

z = (x − μ) ÷ σ
Com média 100 e desvio padrão 15, o valor 130 dá z = (130 − 100) ÷ 15 = 2.
Três valores de uma escala com média 100 e desvio padrão 15 (como as de testes de QI), com z e percentil.
Valor xzPercentil (P(X ≤ x))Acima de x
70−22,28%97,72%
85−115,87%84,13%
130297,72%2,28%

O verdadeiro poder do z aparece ao comparar escalas diferentes. Suponha 82 pontos numa prova com média 70 e desvio padrão 8, e 640 pontos noutra com média 500 e desvio padrão 100. Em números brutos não dá para dizer qual foi melhor. Em z: o primeiro resultado tem z = (82 − 70) ÷ 8 = 1,5 (percentil 93,32%) e o segundo, z = (640 − 500) ÷ 100 = 1,4 (percentil 91,92%). A primeira nota foi relativamente melhor, mesmo parecendo "menor".

A regra 68-95-99,7

A regra empírica é o atalho mental da normal: cerca de 68% dos valores ficam a até 1 desvio padrão da média, 95% a até 2 e 99,7% a até 3. Os valores exatos, que a calculadora devolve, são 68,27%, 95,45% e 99,73%. Aplicada à escala de média 100 e desvio padrão 15, a regra vira três faixas concretas.

Regra empírica com μ = 100 e σ = 15.
FaixaIntervaloRegraExato
μ ± 1σ85 a 11568%68,27%
μ ± 2σ70 a 13095%95,45%
μ ± 3σ55 a 14599,7%99,73%

Áreas, percentis e exemplos calculados

Toda pergunta de probabilidade na normal segue o mesmo caminho: padronize, escolha a região (abaixo, acima, entre ou fora) e leia a área. A inversa também existe: dado um percentil, descubra o valor. Os exemplos usam notas de prova com média 70 e desvio padrão 10, e a escala de média 100 e desvio padrão 15.

  1. Quem passa de 85?z = (85 − 70) ÷ 10 = 1,5. A área à direita de 1,5 é 6,68%. Cerca de 1 em cada 15 alunos.
  2. Quem passa de 60?z = (60 − 70) ÷ 10 = −1. A área à direita de −1 é 84,13%, o complemento do percentil 15,87%.
  3. Qual a nota de corte dos 10% melhores?Procure o z que deixa 10% à direita: 1,2816. Então x = 70 + 1,2816 × 10 = 82,82.
  4. Entre quais valores ficam os 95% centrais (μ = 100, σ = 15)?z = ±1,96, então de 100 − 1,96 × 15 = 70,60 a 100 + 1,96 × 15 = 129,40.
  5. Qual a chance de ficar entre 90 e 110 (μ = 100, σ = 15)?z vai de −0,667 a 0,667. A área entre eles é 49,50%, bem menos que os 68% de ±1σ, porque o intervalo é mais estreito que 1 desvio padrão.

Teste os seus próprios valores na ferramenta abaixo: ela desenha a área sombreada, mostra o z de cada limite e também resolve a direção inversa (do percentil para o valor).

Calculadora de distribuição normal: probabilidades, z-score, percentis e valor-p com o gráfico da área.Abrir a ferramenta em página inteira

Valor-p e valores críticos

Num teste z, o valor-p é a área nas caudas além da estatística observada. No teste bilateral, contam as duas caudas; no unilateral, só uma. Um z de 1,96 deixa 2,5% em cada cauda, daí o p bilateral de 0,05. Um z de 2,5 dá p = 0,0124; um z de 1,8 num teste unilateral à direita dá p = 0,0359. Os valores críticos abaixo são os que mais aparecem nos testes.

Valores críticos z mais usados.
Confiançaαz bilateralz unilateral
90%0,101,6451,282
95%0,051,9601,645
99%0,012,5762,326
99,9%0,0013,2913,090

Quando o desvio padrão da população é desconhecido e a amostra é pequena, a referência passa a ser a distribuição t de Student, com caudas mais pesadas. Com uma estatística de 2,1 e 9 graus de liberdade, o p bilateral é 0,0651 e o teste não rejeita a 5%. A mesma estatística lida como z daria 0,0357 e rejeitaria. Escolher a distribuição errada muda a conclusão. A calculadora de teste de hipótese ajuda a montar o teste completo.

Erros comuns

Achar que a regra 68-95-99,7 vale para qualquer dado

Ela descreve a curva normal, não os dados em geral. Confira o formato com um histograma. Em dados assimétricos, a fatia dentro de 2 desvios padrão pode ser bem diferente de 95%.

Confundir bilateral com unilateral

O z crítico de 5% é 1,96 no bilateral e 1,645 no unilateral. Usar o valor errado dobra ou divide por dois o seu nível de significância real. Decida o sentido do teste antes de olhar os dados.

Interpretar a altura da curva como probabilidade

A densidade pode passar de 1 em curvas estreitas e não é probabilidade. Probabilidade é sempre área. A chance de um valor exato é zero; só intervalos têm chance.

Usar o desvio padrão errado

O z de uma observação usa o desvio padrão dos dados. O z de uma média amostral usa o erro padrão, σ ÷ √n. Trocar um pelo outro faz o resultado parecer muito mais (ou muito menos) extremo do que é.

Tratar "z grande" como certeza

Um z de 3 deixa 0,27% nas duas caudas somadas. Raro não é impossível: em milhares de observações, esperar alguns z acima de 3 é normal. Valor-p baixo não prova que o efeito é grande nem que a hipótese é falsa.

Perguntas frequentes

O que é um z-score?
É a distância de um valor à média medida em desvios padrão: z = (x − μ) ÷ σ. Um z de 2 significa dois desvios padrão acima da média; um z de −1, um abaixo. Como não tem unidade, serve para comparar valores de escalas diferentes.
Como funciona a regra 68-95-99,7?
Em dados aproximadamente normais, cerca de 68% ficam a até 1 desvio padrão da média, 95% a até 2 e 99,7% a até 3. Os valores exatos são 68,27%, 95,45% e 99,73%. Para dados muito assimétricos a regra não vale.
Qual a diferença entre z e t?
A normal (z) supõe que o desvio padrão da população é conhecido. A t de Student é usada quando ele é estimado pela amostra, especialmente em amostras pequenas, e tem caudas mais pesadas. Com muitos graus de liberdade as duas ficam praticamente iguais.
Por que 1,96 aparece tanto?
Porque é o z que deixa 2,5% em cada cauda, ou seja, 95% no centro. É o valor crítico bilateral do nível de confiança de 95%, o mais usado em intervalos de confiança e testes.
Posso usar a normal com qualquer conjunto de dados?
Não. Ela é um modelo. Antes de usar, olhe o histograma e procure assimetria e valores extremos. Para médias de amostras grandes a normal costuma ser uma boa aproximação, mas para dados individuais assimétricos ela pode enganar.

A distribuição normal se resume a uma média, um desvio padrão e áreas sob uma curva. O z-score converte qualquer valor em desvios padrão e permite comparar escalas distintas; a regra 68-95-99,7 dá a intuição (com os valores exatos 68,27%, 95,45% e 99,73%); e valor-p e valores críticos são apenas áreas nas caudas. O cuidado essencial é conferir se os dados são mesmo aproximadamente normais, escolher entre uma e duas caudas antes de olhar o resultado e não confundir desvio padrão com erro padrão. Com isso, as perguntas de probabilidade deixam de ser receita e viram uma conta que você consegue explicar.

Fontes e referências

  1. NIST/SEMATECH e-Handbook of Statistical Methods, 1.3.6.6.1 Normal Distribution
  2. NIST/SEMATECH e-Handbook, 1.3.6.7.1 Cumulative Distribution Function of the Standard Normal Distribution
  3. Mathwords, Empirical Rule